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CORINA

2a. edição





HILDA MAGALHÃES

Published by Hilda Magalhães at Smashwords

Copyright 2017 Hilda Magalhães

(1a. edição, 2007 impresso)





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Para

minha avó Corina e

minha mãe Olinda

Meus Agradecimentos:

Elza Corrêa,

Joaquina Bueno,

Terezinha de Jesus e

João Corrêa

Sumário

Capítulo I- Uma história, uma vida

Capítulo II De volta para Goiás

Capítulo III O casarão da Glorinha

Capítulo IV Tecendo a vida

Capítulo V Os rumos do Quilombo

Capítulo VI A Fazenda Quilombo

Capítulo VII Cores da vida

Capítulo VIII É do Quilombo que falo

Capítulo IX Últimas linhas

Sobre a autora

Entrevista Smashwords

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CAPÍTULO I- UMA HISTÓRIA, UMA VIDA



O navio singra as águas profundas do Mar Mediterrâneo, deixando para trás as últimas imagens da Grécia. Estamos chegando a Israel, alguém avisa. Dentro de algumas horas estou dentro da Igreja da Natividade, o lugar sagrado onde Jesus nasceu. Espanto-me ao saber que o local sagrado é visitado com frequência por ladrões que surrupiam as prendas que os visitantes, reproduzindo o gesto dos reis magos, trazem para o menino Jesus.

Pouco depois, estamos andando nas ruas estreitas de Jerusalém, em busca dos traços da crucificação de Cristo. Com veneração, aproximo-me do local em que a cruz foi fincada e beijo aquele lugar sagrado não com os lábios, mas com a alma. Nas mãos trago um molho de rosários que, peço, sejam abençoados. Com eles vou presentear minha mãe, minha sogra e minha avó Corina, pessoas pelas quais rezo, estendendo os pedidos de graça, saúde e paz, e que Deus nos abençoe a todos, amém

Descemos do altar da crucificação e nos aproximamos da lápide que marca o local onde Cristo foi banhado e depois seguimos para o Santo Sepulcro. É um cômodo minúsculo localizado mais ou menos no centro do Templo, guardado dia e noite, em vigília, por um sacerdote de enorme barba, coberto, da cabeça aos pés, por uma veste negra.

Passo a mão trêmula no local onde Cristo depositou sua cabeça e todo o meu corpo e minha alma como que renascem. Quanto tempo teria durado aquele momento? Não saberia dizer. Mas de uma coisa estava certa: eu jamais seria a mesma depois daquela viagem mística. E, a partir daí, todo o trajeto ganhou um novo sentido: tudo o que eu via me ensinava muito mais do que o puramente histórico, o puramente literário ou o puramente científico. Aceitei com admiração e humildade as pirâmides do Egito, bem como as ruínas de Atenas e de Roma. Fazendo o caminho de volta, enterneci-me com as pequenas ilhas gregas, postais de uma época que nunca vivemos, mas que, historicamente, pertence a todos nós. Emocionei-me com as ruas de Florença e com as estátuas da Basílica de São Pedro.

Mas, de repente, eu senti que precisava voltar. Eu precisava voltar, e havia uma urgência nisso. Sentia saudades do sol, dos familiares, lembrava-me de meu avô, que havia ficado doente e estava de cama, e de minha mãe, que, viúva, havia deixado a fazenda e se mudado para a cidade. E, embora tenhamos permanecido apenas dois anos na França, esse tempo agora parecia enorme demais: descobri-me filha do sol e precisava voltar.

Sim, precisava voltar, mas voltava agradecida pelo aprendizado que o Velho Mundo havia me proporcionado e, por isso, quando desci as escadas douradas da Sorbonne pela última vez, o fiz com respeito. Desci cada degrau lentamente, enquanto entoava, em voz muda, a prece dos pós-doutores: que eu não coloque a razão acima de tudo, porque a vida é mais larga do que a luz da razão; que eu não menospreze os sentimentos, porque um profissional sem emoção não passa de um autômato; que eu não petrifique a intuição e a imaginação, porque um pesquisador que não possa criar não passa de uma fraude; que eu jamais me esqueça de que o diploma certifica o aprimoramento do intelecto, mas não o do ser humano, que é muito mais do que isso: é também sentimento, é também criação, é também sensação e espiritualidade. Que eu não me esqueça, finalmente, de que faço parte de uma rede cósmica e tudo que eu fizer contra ela será a mim que o estarei fazendo. Amém.

Num ensolarado dia do mês de maio de dois mil, o avião que me trazia aterrissou no chão de Goiás. Sei que voltei mudada, porque, como diria Drummond, perpassava em mim um novo sentimento do mundo, e, por isso, quando revi as pessoas que deixamos no Brasil, senti que o meu abraço agora era mais firme.

Percebi, entretanto, desde logo, que a viagem não estava concluída, apenas o roteiro havia mudado. Não leio mais Guimarães Rosa. Nem Clarice Lispector. Continuo admirando-os, mas sinto um grande cansaço, uma enorme lassidão que me impede de continuar a releitura. Em compensação, leio e releio Homero, Borhs, Capra, Morin e Boff. Também sinto urgência de ver minha avó. Antes de ir embora para Mato Grosso, onde dou aulas de Teoria Literária, eu a visito na Fazenda Funil, no Município de Silvânia, no Estado de Goiás, numa casa modesta de dois quartos, em que vive com meu avô, ele concluindo sua passagem por este mundo. Dois anos depois, num outubro chuvoso, ele falece e é enterrado em Silvânia, no mesmo cemitério onde jazem os seus filhos Oscar e Joana D'Arc.

Minha vó parece frágil como uma folha caída com os ventos de outono. Até sua roupa, larga e em tons marrons, parece indicar essa estação melancólica, que, em todos os seus signos, indica mudanças. Outubro passa lentamente, a mesma lentidão de novembro e dezembro. Os filhos resolvem vender umas cabeças de gado para comprar uma casa para ela em Silvânia, no Bairro Pedrinhas, na mesma rua em que reside sua filha mais velha, Olinda, minha mãe.

É nessa casa que continua minha viagem. Sou a neta mais velha de Corina e essa é a primeira vez que a visito depois que meu avô faleceu e que ela se mudou para Silvânia. Sei que está totalmente restabelecida. Os problemas de estômago e do coração estão controlados, mas minha mãe me avisa: o médico pediu cuidados especiais, que ela não deve andar sozinha, etc, etc.

Vamos as duas, minha mãe e eu, vê-la. Em menos de dois minutos fazemos o pequeno trajeto que separa as duas casas, entremeadas por duas ou três residências. Minha mãe leva nas mãos o copo de vitamina que as duas tomam, pontualmente, às três da tarde, uma mistura que inclui leite de vaca e de soja, fruta, mel, linhaça, chá verde, Biotônio Fontoura e óleo de bacalhau. Os passos rápidos e enérgicos de minha mãe expressam o vigor de seus sessenta e poucos anos, nenhum problema de saúde, conforme registram os exames médicos.

Minha avó está de pé na área dos fundos e nos recebe com alegria. Pergunto como está indo, e ela me responde que vai bem, reclama apenas da fraqueza, uma fraqueza sem fim que não a deixa nem mesmo fazer um almoço, sem precisar desligar as panelas e se deitar. Entramos. A casa é enorme. A pintura ainda cheira a novo. O piso é claro e brilhante. Os cômodos, amplos e frescos, recebem a luminosidade do sol através das largas janelas. O seu quarto, uma suíte com um banheiro enorme, tem uma cama de solteiro, um guarda-roupa novo e a máquina de costura, que a acompanha há quase cinco décadas. Ao lado de seu quarto, separados por outro banheiro, há mais dois quartos, sendo um bastante amplo, onde ficam os aposentos do filho caçula, casado com Vanete, pais da pequena Larissa.

No mesmo alinhamento da garagem há uma sala, uma copa transformada em sala de TV e a cozinha, mobiliada com uma geladeira, um armário, uma mesa oval e um bufê de madeira, estes dois últimos trazidos da fazenda depois que minha avó enviuvou. A pia, de granito, ocupa toda uma parede do cômodo e repousa sobre um armário de fórmica laranja, dando um tom pós-moderno à cozinha: era a única cor disponível na marcenaria, explica-me minha avó. Toda essa mobília compõe um curioso conjunto com o piso claro e o revestimento levemente acinzentado das paredes, ornado com um friso cinza brilhante, num tom acima daquele do revestimento. Na parede da pia vê-se um ramalhete de alho ou cebolas em gesso, em tons laranja, marrom e vermelho, um suporte para panos de prato em forma de peixe em tom cor-de-rosa e uma tábua de carne em madeira vermelha.

Minha mãe oferece à minha avó o copo de vitamina, que ela toma na sequência. Enquanto isso, sentamo-nos ao redor da mesa e conversamos amenidades. Então minha mãe se levanta e vai embora, levando o copo vazio nas mãos.

Como está frio, passamos, minha avó e eu, para a área dos fundos. É então que ouço o convite que minha vó, sem perceber, faz a todos que a visitam. É sempre um convite para viajar no tempo, pelo túnel da memória. O sol está quente. Corina tem apenas três para quatro anos, mil novecentos e vinte e sete. Barreiras, no limite do oeste baiano, não tinha o esplendor que a soja lhe empresta nos dias atuais. Retirantes de toda a Bahia descobriam as terras goianas, numa longa travessia feita no lombo dos burros ou a pé: Goiás, região de imensos e esquecidos eitos de terra, surgido do brilho do ouro nos tempos do Brasil colônia, era um mundão de meu Deus, perdido no coração do País.

A hora havia chegado. Joana e suas filhas se despedem, com lágrimas nos olhos, de Maria Raimunda, quando, de repente, Camerinda apega-se a Maria Raimunda e, com a voz entrecortada pelo choro, diz que não vai, que fica com a avó, que é vó e madrinha. Nas vagas do choro dos que vão e dos que ficam, Joana remexe nas malas, retira as roupas de Camerinda e as entrega à filha. A separação é difícil, mas, aos poucos, o sol quente do sertão vai secando as lágrimas de todos, menos as de Joana, que de saudade temperavam os longos e quentes dias da longa viagem. Precisar, precisar ir, não precisavam. Nos arredores de Barreiras, de grito com a cidade, a chácara da família dava o sustento. Ali tinham de tudo um pouco: plantação, água do Rio Grande, montaria, criação de galinha, porcos, vaca e cabrito.

Mas quem segura a força do sonho, do destino, do que há de vir? Goiás era o espaço do sonho, e o chamamento parecia irresistível. A comitiva que partia para Goiás era grande, comandada por tio Tal, o primeiro a arribar mudança para os rumos de Goiás havia já alguns pares de anos. Depois, Chil seguira os caminhos do irmão e, no ponto em que estamos, os dois terminavam de construir o trecho da estrada de ferro que liga Vianópolis a Silvânia, indo para Goiânia. Como os serviços tinham sido paralisados naquela altura do trajeto, tio Tal resolvera voltar à Bahia, para onde foi também com a incumbência de trazer a família do irmão, se Joana, a esposa, assim o desejasse.

Corina e outras crianças menores viajavam na garupa dos burros, enquanto os adultos seguiam a pé. Da longa viagem, lembra-se da mãe sempre chorando a ausência de Camerinda. Lembra-se das paradas nas fazendas, em que os homens pegavam um ou outro pequeno serviço. Lembra-se dos pousos na beira dos córregos, em que a comitiva descansava para reiniciar o longo trajeto. Numa dessas paradas, Corina, menina de três ou quatro anos, se desequilibrou na montaria e foi jogada violentamente no chão, ferindo-se toda. Todos tinham se preparado para seguir viagem e se punham a caminho, quando a prima, que cavalgava o burro em cuja garupa Corina viajava, lembrou-se de que havia esquecido a capa de viagem, uma vestimenta longa que as mulheres usavam para cavalgar. A prima retornou com o cavalo para pegar a vestimenta, cuja cor, azul, assustara a montaria, derrubando Corina no cascalho.

Ao chegarem em Goiás, reuniram-se todos na região da Biquinha, local de rancharia dos turmeiros, como eram chamados os construtores de estrada. Essa região, localizada na entrada de Silvânia, bem próximo à linha de ferro, é propriedade do Ginásio Anchieta, cuja construção, aliás, estava no início. Como não havia previsão de retomada dos trabalhos da construção da estrada de ferro, os operários foram desviados para a construção da rodovia que ligaria Antas (Anápolis) a Goiás Velho, a ser aberta a enxada e enxadão. Os trabalhos eram divididos entre os grupos de operários, cada grupo liderado pelo turmeiro ou gerente de turma. Tio Tal era um dos turmeiros, mas, assim que voltou da viagem à Bahia, sua esposa adoeceu e os dois se mudaram para Vianópolis, passando a trabalhar nas fazendas das redondezas. Chil assumiu, assim, o lugar do irmão. Como era costume, um caminhão transportava a família e os pertences dos trabalhadores para uma distância de três quilômetros do local do ponto de trabalho. Lá, erguia-se um rancho simples de pau-a-pique, onde permaneciam até a próxima mudança, que ocorria quando os trabalhadores haviam ultrapassado o acampamento em mais três quilômetros, e assim sucessivamente até a conclusão da obra.

A rancharia era o ponto de apoio para os trabalhadores. De lá seguiam as refeições, feitas pelas mulheres e transportadas pelo marmiteiro, que era um homem designado para o transporte das bruacas com as marmitas. Para executar sua tarefa, o marmiteiro colocava sobre os ombros uma vara, em cujas extremidades dependurava os caldeirõezinhos com a comida, transpondo, por este meio, a distância que separava o acampamento da frente de trabalho.

Naquela época, Corina adoeceu. Três longos anos foram necessários para que a estrada fosse concluída e, quanto mais ela avançava, mais Corina definhava, ficando cada vez mais fraca. Por fim, não tinha ânimo nem para brincar. Vivia ali pelos cantos, sem forças para nada. Não se alimentava, por mais que a família insistisse. A única coisa que seu corpo aceitava era o feijão feito por ela mesma, sem tempero algum.

Uma novidade, entretanto, pareceu lançar um raio de vida na menina. Em algum ponto da estrada, havia uma escola, onde as crianças poderiam estudar. Corina se animou a ir. No primeiro dia de aula, se arrumou e pegou a estrada, mas foi devagar, nos passos que a anemia lhe permitia, para desespero da irmã mais velha, Almerinda, que não queria se atrasar logo no primeiro dia de aula.

Ao chegar à escola, a professora olhou Corina de alto a baixo e dirigiu-se à irmã:

_. Essa menina também veio para estudar?

_. Sim, respondeu Almerinda.

A professora apontou uma das carteiras no canto da sala _ naquela época as carteiras eram dispostas em semicírculo e disse:

_Sente-se aí.

E nunca mais olhou para ela. Corina ficou ali esquecida. Da professora não recebeu papel, não recebeu lápis, não recebeu qualquer atenção. Era como se não existisse ali na sala, do início ao fim da aula. Foi a primeira e a última vez que Corina frequentou uma escola. E, a partir de então, sem comer, sem brincar, sem viver, Corina passava os dias pelos cantos do rancho, no entremeluzir da vida e da morte.

Dezembro chegou e todos pensaram que Corina a janeiro não chegaria. Compraram a roupinha que usaria quando morresse, roupinha toda branca, sapatinho da mesma cor. O enxovalzinho fúnebre, ali, guardadinho, para que não houvesse surpresas e nem correrias de última hora. Mas nada de Corina morrer e também nada da menina melhorar. Os dezembros se sucediam, e de novo todos pensavam que a menina janeiro não alcançaria, mas, embora piorasse sempre, continuava naquele meio termo, meio que viva, meio que morta.

Três anos já havia se passado desde que começaram a abrir a estrada em Anápolis. Os serviços chegavam agora a sua etapa final. A capital de Goiás estava tão próxima que Corina podia ouvir, todas as manhãs, o barulho da corneta do quartel, que ficava nos arredores da cidade.

Corria o ano de 1930, quando, numa manhã, o responsável pela obra chegou à casa de meu tataravô e, vendo aquela menina doente sentada no terreiro, pegando sol, estranhou:

_Quem é essa menina?

_Minha filha.

_Sua filha? Mas como nunca a vi?

_É que ela fica por aí, pelos cantos.

_Mas você quer que sua filha morra?! Estamos pertinho do recurso e você deixa sua filha morrendo?!

Depois de recriminar Chil, o doutor pegou a menina e, na mesma hora, levou-a para a cidade. Neste momento da narrativa, Corina para. Diz do pavor que foi para ela entrar naquele carro todo preto, ir para não sabia onde. Sorte que uma vizinha se predispusera a acompanhá-la. Ali, sentadinha no banco do automóvel, amarela, magrinha e amedrontada, Corina, tão indefesa, seguia para a luz. O médico receitou-lhe um remédio para anemia e, a partir daí, ela foi tomando cores de gente. Tinha sido longo e lento o seu caminhar para a cura. Tivera que esperar que a rodovia Anápolis/Goiás ficasse pronta. Essa estrada, aberta pelo suor de meu bisavô e pelos homens que ele gerenciava, havia levado Corina para a vida. O vestidinho e os sapatinhos brancos que ela tantas vezes contemplara nunca seriam usados por ela. Agora Corina iria crescer e encontrar o seu destino.

..............

No dia seguinte, o tempo amanhece fechado e frio, uma mistura de chuva e vento entra pela janela. Aperto a grossa blusa azul marinho que uso apenas quando vou a Silvânia e acompanho minha mãe em sua primeira visita do dia à casa de Corina. Em frente à sua residência, no meio da calçada que separa a grade da casa, uma roseira exibe os seus primeiros botões. Abro o portão e transponho o longo corredor entre a casa e o muro e entro pela varanda dos fundos. Minha avó está na cozinha. Cumprimento-a e o seu abraço é firme e carinhoso. Pergunto se passou bem a noite, responde que sim. Ela então me convida para nos sentarmos ao sol, na área de serviço. São nove horas.

Pergunto-lhe sobre sua bisavó.

_Minha bisavó era índia, pega no laço.

_Pega no laço?

_Não sei contar direito, mas o que contavam é que minha bisavó era índia. Os peões da fazenda de um tio foram campear no pasto e toparam com uma turma de índios e, na correria, uma indiazinha não conseguiu acompanhar os outros e ficou para trás. Os peões cercaram a menina, laçaram-na e a levaram para casa. Daí em diante, não sei dizer o que aconteceu, só sei que alguém criou a indiazinha e depois meu bisavô se casou ou se juntou com ela, não sei, deve ter se casado.

_ Mas não sei o nome da minha bisavó, continua Corina. Só sei, porque ouvi falar, que ela era uma indiazinha muito braba, muito braba mesmo, e, quando pega, dava muito coice, muito chute e mordia e xingava na língua dela, ninguém entendia nada. Depois aprendeu a nossa língua e ficou civilizada.

E assim, fiquei sabendo da história da minha tetravó índia, que pairava no meu imaginário como uma lenda. Quão pouco tempo dura a memória de nossa passagem pela Terra! Em quatro gerações, as pessoas são totalmente esquecidas. É espantoso como, em tão pouco tempo, um mundo inteiro é engolido por Cronos! Como ela era? O que pensava? O que temia? Mas, como saber, se não existe nenhuma foto e, mesmo que existisse, não passaria de uma foto. Não haveria ninguém para falar de seu jeito, de seus medos, de seus sonhos. Para o mundo, não acabamos quando morremos, mas quando morre o último dos seres humanos que fizeram parte de nossa vida, levando as derradeiras ressonâncias de nossa existência. Minha tetravó índia, o seu mundo, as pessoas com quem conviveu, os conflitos, os erros e os acertos, tudo: palavras, nomes, grandes atos, mesquinharias, dúvidas, certezas, gargalhadas, o que era importante e o que não era: tudo foi engolido pelo tempo. Resta-nos um enorme espaço amarelado, onde o passado se confunde com a eternidade e o Nada e de onde surgem, como que por milagre, nossos bisavós, seres meio míticos, meio inteligíveis, representantes de um tempo que não vivemos.

Olhando o álbum de fotos de Corina, tento adivinhar nos traços de minha bisavó Joana, mãe de minha avó, as feições de nossa ancestral indígena. Mas as fotos se calam no amarelado do tempo, nas feições que se perderam, nos dias que se passaram. No enredo das fotos não cabe o que o clique não pôde registrar. E eis que me encontro analfabeta diante desse texto que quero ler e não consigo. Quero saber mais do que o que as fotos me mostram, mas as imagens se calam nos limites das molduras.

Recorro à minha tia Almerinda, a mais velha das irmãs. Quem sabe, ela pode me ajudar. Mas ela nada acrescenta ao que minha avó Corina me contou. E assim, eis que falha a foto, perde-se a memória, mas eu sei: aqui e ali, traços dessa ascendência se mostra. Cada um de nós somos fotos invisíveis de outros tempos, de outras vidas, de outras culturas, que se vão desenhando no nosso presente, atualizando jeitos, faces e vozes.

E a brisa que nos afaga o rosto e os cabelos é a mão do futuro, com jeito de presente, empurrando-nos gentilmente para o vazio do tempo, pelo qual, um dia, seremos engolidos, nós e todos os que nos conhecem, dando passagem a um novo mundo que, surgido de nós, será, um dia também engolido. É a lei da reescrita, na dança do tempo, no véu do vento, no tecido da vida.

CAPÍTULO II- A VOLTA PARA GOIÁS

Palmas me recebe no limiar de sua história. Mato Grosso, trago-o comigo, inscrito em minha memória, em minhas linhas, em minha história. A casa em que moro, em Palmas, é espaçosa e, principalmente, clara. Muito clara. Não gosto de casas escuras. Mesmo as cortinas são dispensáveis, pois, por mais diáfanas que sejam, velam o dia, velam a luz. E luz é o que mais preciso neste mar de linhas, letras e memórias, pois Corina é um manancial de lembranças, de cores, de detalhes, de vida, que jorram do seu passado como se presente fosse, tamanha a precisão e a clareza dos fatos e das sensações. Para mim, que escrevo ficção, não é fácil ter como limite a realidade. Onde agora devo chegar, isto é, nos limites do real, é de onde costumava partir no trançado de tantos personagens criados no sem-limite da imaginação. Agora é diferente. Não tenho de inventar nada, sequer um personagem, sequer uma ação, sequer um fato. Tudo é real, tudo foi real e, de repente, o que parece tão fácil, fica tão difícil, porque preciso organizar tudo numa linguagem simples, mas eficaz; poética, mas de fácil compreensão e, sobretudo, preciso ser fiel em cada detalhe, em cada nuance. Devo usar as palavras exatas, como o pintor deve escolher a tonalidade certa para pintar cada imagem, cada sensação, cada sentimento.

Estou imersa nessas reflexões metalinguísticas, quando, de repente, uma vozinha me distrai do computador:

_Tia, quando é que nós vamos para a chácara? Faz tempo que não vamos lá.

É minha sobrinha Giovanna, filha de meu irmão José Dutra, um dos pioneiros de Palmas, que para cá veio para trabalhar nos Correios e hoje é funcionário da Infraero.

_Não sei, respondo. Qualquer dia desses...

_É que eu quero pescar, faz tempo que não vamos lá.

_Pergunte para o seu tio, quem sabe ele diz…

Não obtenho resposta. Tiro os olhos do computador. Giovanna já não está mais ao meu lado, juntou-se à irmã menor, Beatriz, e à minha filha, Lorena, e se preparam agora para brincarem de esconde-esconde. Ali, absorvidas no viverbrincar, as três fazem parte de um outro universo, quase posso senti-lo. A impressão que tenho é que, se estender a mão, toco na finíssima bolha que forma esse mundo só delas. Olho-as novamente e, no meio da tarde, aquelas meninas como que parecem mágicas, ancestrais. São todas alices em seu país de maravilhas. Ali, brincando, o tempo como que para para elas.

Tento me concentrar novamente, mas não consigo. O rádio ligado, cujo som antes não percebia, agora me incomoda. Mesmo o barulho do rodo que a minha empregada passa na área me impede de retornar ao livro. Lili, a poudle de Lorena, entra na sala e agora se junta às meninas. Daí a pouco, uma vozinha de criança começa uma contagem vacilante. É Beatriz, a filha mais nova de meu irmão, que se esforça para contar até vinte, enquanto Lorena e Giovanna, em alvoroço, buscam um esconderijo seguro. Olho as horas no monitor. São quinze horas. Preciso me levantar um pouco, as costas reclamam. Levanto-me. O fio da memória foi cortado. Volto depois.

Passados dois dias, o computador novamente me chama. A casa agora está silenciosa. A claridade que proporciona o sol de Palmas é tão intensa que mesmo eu pareço estar transparente. Sento-me à frente do computador, a tela se abre. Sim, lá está Chil. Vejo a estrada que ele abriu com as suas mãos e que agora leva à Capital tantas crianças, jovens e adultos, anêmicos ou não, em busca de conhecimento, de vida, de luz.

Depois que foi concluída a estrada de Anápolis a Goiás Velho, Chil voltou com sua família para a Bahia. Joana sofria muito com a falta da mãe e da filha, Camerinda, que, aliás, já devia estar moça. Assim como vieram, voltaram: uma carroça com os víveres, as crianças no lombo dos burros, os demais a pé. Três meses de viagem. Mas o que é a distância? Como se mede a distância? Pelos passos do homem, pela extensão do metro? Pelo trotar do cavalo, pelo voo da bicicleta, pelas asas do avião? Pelo medo, pela saudade, pelo coração? Quem vai saber? E, ademais, naquele tempo, tudo andava devagar, no sertão de Goiás. O local onde, décadas depois, o plano piloto de Brasília aterrissaria suas asas, era ainda sertão, cerrado, solidão. Algumas poucas estradas marcavam o circuito por onde entravam os baianos, em busca de uma vida melhor.

Quando chegaram em Barreiras, Chil já estava doente. Sofria uma pneumonia que não melhorava por nada desse mundo. Corina se lembra desses meses que por lá passaram. Lembra-se do pai doente. Impressionara-se com o avô Francisco, deitado na rede, os olhos fechados, a barba branca e longa se mexendo como se estivesse mastigando ou rezando. Lembra-se de ajudá-lo em seu ofício com o couro, que incluía trançar corda, fazer balaios e arreios para as montarias. Conta-me que tanto o seu avô quanto a sua avó eram benzedores. Lembra-se de ver o avô rezando nas águas do Rio Grande a reza em que pedia a cura do genro, oferecendo a Deus a sua vida em troca.

_ E a reza valeu, vó?

_ Valeu, sim. Depois disso, meu pai ficou são, mas o meu avô adoeceu e, em seguida, morreu.

E, recuperado, Chil logo anunciou: Vou para Goiás, quem quiser ir que me siga.

Venderam a chácara e dividiram o dinheiro entre os dois filhos (Joana e Damásio) e a viúva. E vieram todos, numa grande caravana. Além da família, vieram outras pessoas, inclusive um casal de pretos que, como não tinha recursos, viajaram custeados por Chil.

Agora deixariam de vez a terra de seus pais, a terra em que nasceram. Alguns talvez jamais voltariam a ver as águas do Rio Grande. Mas estava decidido. E tudo o que era de se levar já estava devidamente arrumado nas mulas. Barreiras era uma cidade portuária, movimentada, avançada. Mas, para eles, Barreiras já fazia parte do passado. Como todos os que por ali passavam, eles agora deixavam aquela cidade para atender aos clamores da estrada, do tempo, do sonho, do futuro.

Como imaginar as emoções contraditórias que passavam por aqueles corações? O que pensava, o que sentia a matriarca Raimunda, que deixava o seu esposo enterrado nas proximidades do Rio Grande, deixando também sua pequena chácara, sua juventude, suas dores e seus dias de alegria? O que se passava naquele coração que agora iria para um lugar tão distante, onde certamente morreria e seria enterrada tão longe da terra de sua mãe índia, capturada ainda menina? Como medir a alegria de Joana de poder levar consigo a mãe, o irmão e a filha, se esse sentimento se confundia com o luto pela morte do pai? Como pesar os sentimentos de Tio Damásio, que, com sua esposa Cruzinha e o pequeno filho Pombo, dava também um passo definitivo em seu destino?

CAPÍTULO III- O CASARÃO DA GLORINHA

Volto a Silvânia. O trajeto é novo, pois não venho de Barra do Garças, mas de Palmas, capital do novo estado, Tocantins. O dia já está quase terminando e estamos cansados da viagem, iniciada na madrugada. Passamos agora pela antiga capital de Goiás e logo estaremos percorrendo o último trecho de um trajeto alternativo que nos leva de Palmas a Silvânia, sem nos submetermos aos perigos da BR 153, ainda não duplicada. As ruas e as casas coloniais da antiga capital de Goiás me trazem à memória as apertadas ruas de Reims, pequena cidade francesa, cuja catedral gótica é um dos mais importantes patrimônios da Humanidade. Os pensamentos migram da França para a pequena cidade de Goiás, num fluxo incontrolável e aparentemente sem nexo, enquanto mantenho os olhos cerrados. Quanta distância existe entre uma arquitetura e outra, entre uma cidade e outra, entre uma cultura e outra, mas, mesmo assim, as duas cidades insistem em ocupar meu pensamento. Que fio analógico ligaria todas essas memórias, que agora tento reproduzir nas invisíveis linhas do computador?

Quando meu esposo me pede que lhe passe a garrafa de água, abro os olhos. Estendo-lhe a água e comento como se estivesse falando para mim mesma: sabia que estamos passando na estrada que seu avô ajudou a construir? Fecho os olhos novamente. Na minha memória tento reconstruir a imagem daqueles homens debaixo do sol, abrindo primeiro as picadas, depois desmatando o leito da estrada, abrindo cada centímetro de chão sob o sol inclemente, para que o progresso entre Goiás adentro, espantando a fome, a solidão, a doença, o analfabetismo. Será que ele tinha consciência do quão nobre era o serviço que fazia? Os olhos cerrados, deixo que as imagens se formem em minha mente. Ali, enquanto suas crianças brincavam, enquanto sua mulher chorava a ausência da filha e da mãe distantes, ali, enquanto Corina esperava o dia em que usaria sua mortalha de anjo e que jamais chegaria, ali, Chil abria caminho para o que haveria de ser, ensinando a todos que abrir caminho é destino nosso. Caminhos que, primeiro picadas de pioneiro, se transformam em estrada de chão e depois em asfalto, transportando esperanças, sonhos, vidas, na labuta do dia-a-dia.

Cerca de três horas depois, vencemos aquele trajeto que meu bisavô fez em três anos e que agora me mostra o caminho, só que na direção inversa: Anápolis aparece faceira à nossa frente. Minutos depois, é a bicentenária cidade de Silvânia que se desvenda aos nossos olhos. Mas ela o faz aos poucos: primeiro vê-se o Seminário Padre Lancísio, depois o Ginásio Anchieta.

Neste Ginásio, que só aceitava meninos, estudaram os seis filhos mais novos de minha avó, na ordem decrescente: Odilon, Osmar, Clenon, Oneir, Sebastião e Wesley. Se Silvânia ficou conhecida como a Atenas de Goiás, foi pela excelência da formação que proporcionava o Ginásio Anchieta, que ocupa uma enorme área, bem na entrada da cidade. O Anchieta das minhas lembranças era adornado por uma fila de enormes eucaliptos que demarcavam os seus limites com a avenida que dá acesso à cidade. Lembro-me ainda dos cuidados com que o Padre Leandro cercava seu retilíneo eucaliptal.

Hoje, entretanto, os majestosos pés de eucaliptos deram lugar a um alto muro de cor cinza. Mas não apenas o Ginásio está mudado. A cidade definitivamente espichou nos últimos dez anos, por causa da soja, dizem. Não há mais lotes vagos entre o Ginásio e o colégio das freiras. No meu tempo de adolescente, entre esses prédios existiam, mal e mal, um ou dois casebres em adobe, perdidos no cerrado. Agora tudo aquilo é rua, é comércio, é asfalto, é progresso.

Quando passamos em frente ao Colégio Auxiliadora, olho com respeito e com gratidão aquelas paredes, através das quais uma menina ora diante da imagem de Nossa Senhora na pequena capela. Essa menina sou eu. Vejo-me bebendo cada palavra, cada ensinamento de cada uma daquelas freiras. Naquela época só meninas estudavam no colégio. As professoras eram todas freiras, à exceção da professora de História, Kátia Brenner, descendente de alemães, que, no tempo da escrita desse livro, assume a Secretária de Educação no Município.

Eu não sabia, mas aqueles anos forjariam para sempre o meu caráter. Todos os meus valores surgiram dali, daquelas longas horas de meditação, de oração e de estudo. Tive ali uma formação rígida, baseada nos ensinamentos de Cristo, ensinamentos que me guiariam em todos os momentos de minha vida e pelos quais sou agradecida.

Olho mais uma vez para o tradicional colégio, que hoje abre suas portas para meus sobrinhos e sobrinhas e de novo me vejo, agora já adolescente, no pequeno auditório, recebendo, exultante, o meu primeiro prêmio literário, uma caixa de chocolates que ganhei num concurso de redação. Vejo-me planejando o meu primeiro livro e, sobretudo, lendo, lendo, lendo, sem parar, o que me caísse às mãos. Como num flash, vejo-me agora sonhadora, de olhos rasos, no meu primeiro dia como professora, diante daquelas crianças do Instituto Araguaia, em Goiânia, e depois nos Colégios Santa Clara, Marista e Lyceu de Goiânia. Vejo-me ministrando, vinte anos atrás, minha primeira aula na Universidade Federal de Mato Grosso. Lembro-me de como me emocionei quando me dei conta de que duas das minhas alunas eram freiras. No íntimo, eu sabia que elas não estavam ali por acaso, como nada ocorre por acaso em nossas vidas. Aquelas presenças representavam todo o meu passado e me diziam que nesta nova fase eu jamais deveria me esquecer de todos os valores humanos, éticos e morais que essa primeira escola, na minha cidade, havia me proporcionado.

Estamos chegando. Minha mãe, alegre como sempre, vem nos abraçar no portão. Entramos. Sinto-me cada vez mais forte neste ponto da caminhada. A primeira pergunta que faço: Minha vó, como está? Está boa, ela inclusive já veio aqui ver se você já havia chegado.

Tenho pressa de ver minha avó. Existe ainda um longo caminho a ser percorrido, eu sei. Novamente minha mãe me acompanha até a casa de Corina.

Ela vem em seus passos vagarosos e me abraça com força. Estamos prontas para a viagem. Para onde vamos? As suas palavras são lentas, um tom bom de se ouvir. Não há nelas nenhum cansaço. Narra como se falasse consigo mesma, uma narrativa longa, lúcida, objetiva, linear. Há um tom reflexivo em sua voz e, de vez em quando, ela própria para para refletir sobre um fato ou outro. Às vezes sinto vontade de interrompê-la, perguntar alguma coisa, mas temo que as estradas se bifurquem e não retomemos o fio da meada, porque, a cada esquina, a cada novo rumo, um novo mundo se abre, lúcido, translúcido, claro como o dia.

Ela me apresenta o casarão da Glorinha, a paulista de pele cor de leite e olhos claros. Década de trinta. O casarão está que uma tapera só. Seus muros de pedra desmoronam. O piso de madeira está crivado de buracos. O forro de tecido grosso pende, rasgado, cheio de sujeira. O enorme casarão parece fantasmagórico. Seria de mil e oitocentos? De mil e setecentos? Quem vai saber?

_Quem era Glorinha, vó?

Ela me responde que era uma viúva rica, de São Paulo, cujo filho, adotado, era doutor e jamais aparecera por aquelas bandas. As terras de Glorinha, segundo a própria dona, totalizavam três mil alqueires de terra, indo do Quilombo até o município de Luziânia.

Naquela época, o meu bisavô Chil, após o término da construção da rodovia Anápolis/Goiás, já havia ido para a Bahia, de lá trazendo o resto da família. Chegando, foram trabalhar perto do Quilombo, num local denominado Cabeças, fabricando telhas, quando o irmão, Tal, que ainda se encontrava no município de Vianópolis, no Esmeril, chamou-os para irem morar com ele:

_ Lá no Esmeril é bom, o homem dá um pedaço de terra, a gente pode plantar… Isso que vocês estão fazendo não vai dar em nada… Quem vai comprar essas telhas? Vejam quantas casas de telha tem por aqui, todo mundo mora em rancho de capim, ninguém vai comprar telha nenhuma.

Meu bisavô Chil, pai de Corina, foi pronto para acompanhar o irmão. Pegou a família e com ela arranchou num rancho que estava desocupado e caindo aos pedaços, na beira de um córrego. Ali por perto abriram uma roça, em que trabalhavam de sol a sol, ele e as três meninas, Almerinda, Camerinda e Corina, pois a caçula Genolina ainda era pequena demais para o cabo da enxada.

Tio Damásio (como o chamamos, mas na verdade era tio de Corina), irmão de Joaninha, ficou. Só sairia dali quando achasse uma viúva rica para quem pudesse trabalhar. Então quando Joaquim Luís, dono das terras do Funil, procurou-o para que cuidasse do casarão da viúva Glorinha, Damásio não pensou duas vezes, mudando-se imediatamente. Nada ganharia como salário, mas ficara combinado que tudo o que plantasse ou criasse naquelas terras seria dele. A casa era espaçosa, com seis amplos quartos. Num, dormiam tio Damásio e Cruzinha. No outro, dormia minha trisavó, Maria Raimunda, e, no terceiro, Pombo, filho do casal. Com o dinheiro que lhe tocara na venda da chácara de Barreiras e o quinhão de sua mãe, tio Damásio reformou o casarão e colocou gado no pasto. A reforma foi de primeira: ele trocou as tábuas velhas do assoalho, retirou o forro que pendia, aos pedaços, do telhado, pintou as paredes, recuperou o rego, consertou o pesado muro de pedras e construiu o monjolo. A sede ficou tão bem cuidada, que Joaquim Luís mandou avisar para a paulista, lá em São Paulo, que viesse ver a sua fazenda, que estava um brinco nas mãos do baiano.

_E ela veio, vó?

_Veio, veio, sim. Um dia ela apareceu num automóvel preto, com motorista e tudo. Veio ver o casarão e gostou muito.

Nessa época, Corina vivia com seus pais e suas irmãs no Esmeril, no município de Vianópolis, mas o rancho em que moravam era tão infestado de baratas, que, segundo Corina, jamais havia visto e nunca mais voltara a ver algo parecido em sua vida. As baratas entravam em tudo quanto era vasilha, se escondiam nas roupas e nos calçados e roíam suas peles enquanto dormiam; no dia seguinte, os braços amanheciam todos marcados pelas baratas. Joaninha vivia fazendo fumaça de tudo quanto é folha para ver se espantava os insetos, e nada. Ao contrário, elas pareciam aumentar a cada dia.

Foi então que apareceu por lá o benzedor Hermógenes, espantador de males, cobras e outros bichos. Ele chegou ao rancho, pegou uma baratinha entre os dedos e começou a conversar com ela, andando por todos os lados do casebre, apontando-a para os cantos da casa, mandando que deixasse aquela casa, que ali não era seu lugar, e, num emendar de palavras sem fim, passeava com a baratinha dentro e fora do rancho. Feito o serviço, Hermógenes foi embora e, à noite, o chão do rancho se encheu mais ainda de baratas. Parecia que todas as baratas do mundo tinham vindo para a sala do rancho. Joaninha, estranhando, comentou:

_Mas o homem, ao invés de tirar as baratas daqui, parece que trouxe mais!

Seja como for, o fato é que, em três ou quatro dias, todas haviam desaparecido. Não se via mais nenhuma barata no rancho.

Assim estavam, quando tio Damásio, havendo concluído a reforma do casarão, chamou-os para morarem perto dele, nas terras da paulista. Corina se lembra de ajudar o pai, juntamente com as irmãs, a limpar a área da construção e a erguer as paredes, cruzando varinhas de taquara com barro. Dali, só sairia casada. Mas isso ainda demoraria pelo menos três anos. Antes, aproveitaria as festas que tio Damásio passou a fazer no casarão, com muita sanfona e arrasta pé. Para Corina, foram três breves anos de pura alegria. O seu pai, Chil, frequentava todas as festas e sempre levava as filhas. Além disso, fazia questão de que todas dançassem. E assim, as imagens da Bahia se perdiam no trançado dos anos e no som da sanfona nas noites frias e enluaradas do Quilombo.

No pasto, as vacas de tio Damásio aumentavam. As roças produziam o suficiente para garantir a subsistência de todos. As mulheres complementavam com costuras, a criação de galinhas, os ovos. Dinheiro, mesmo, não havia, mas também nada faltava, porque os negócios eram feitos à base de troca e, além disso, havia entre os baianos uma grande solidariedade. Para as urgências, havia Silvânia e Vianópolis, dois pequenos comércios, que, mal e mal, contavam com um médico ou um farmacêutico, mas que davam para o gasto.

São quase seis horas da tarde. Despeço-me de minha avó. Explico-lhe que preciso ir, que ainda não vi minhas irmãs. Convido-a para ir comigo, ela se recusa. Amanhã eu volto, digo sem haver necessidade. Ela sabe que sim.

Transcorro os poucos mais de vinte metros que separam as casas de minha vó e minha mãe sem pensar em nada.

….

Na manhã seguinte, depois de tomar o café da manhã e ajudar minha mãe nos afazeres da casa, vamos, juntas, antes das nove, visitar Corina. É o último domingo do mês de maio, a manhã está ensolarada, mas muito fria e, por isso, ao invés de irmos para a área dos fundos, sentamo-nos ao redor da mesa da cozinha, coberta com três forros sobrepostos: um floral, uma tira de bordado sintético dourado e um plástico transparente.

Trago comigo o casarão da Glorinha, que povoou a minha imaginação a noite toda. Mas é um casarão ainda informe, incerto, encoberto pelo mistério e pela neblina, como uma imagem fora de foco. Corina, com sua fala mansa e segura, ajusta minhas lentes: estamos chegando ao casarão. A construção em cor branca irrompe na paisagem. É uma casa colonial enorme de seis quartos, que se impõe naquele santuário verde. Quanto mais perto chegamos, mais nítida ela me aparece.

Pela força das palavras de minha avó, as enormes portas, como se fossem mágicas, vão se abrindo para nos dar passagem. Entramos. Assim como por fora, por dentro está toda pintada de branco. Minha avó me mostra os barrados azuis, que se formam na minha frente na medida em que suas palavras fluem, cobrindo toda a parte inferior das paredes internas. São lindos barrados feitos por tio Damásio e que vão do solo até um pouco abaixo da linha das janelas. Dali entramos na copa, do mesmo modo ornamentada, amplo cômodo onde se realizavam as danças nas festas realizadas por tio Damásio, nas noites frias do Quilombo.

_ E todos dançavam, vó?

_Não, de jeito nenhum, só nós. As moças do Quilombo só ficavam olhando.

_Mas, por quê?

Então minha vó Corina começa uma longa narrativa: Quando chegaram ao Quilombo, a dancinha, que era a dança de dois, era realizada em cômodos diferentes, um quarto e uma sala. No quarto dançavam mulher com mulher; na sala, homem com homem. Dividindo esses dois espaços, havia a porta, que permanecia fechada. Perto dessa porta ficava o violeiro, distribuindo o som tanto para o grupo dos homens quanto para o grupo das mulheres. Namoro? Só se fosse olhando pelo buraco da fechadura ou pelos vãos da porta. Conversar? De jeito nenhum. Dançar junto, então, imagine, nem pensar! Mas, mesmo assim, de vez em quando uma ou outra moça ficava grávida, fugia…

_ Quando chegamos ao Quilombo, continua minha avó, o povo olhava a gente de meia cara, de soslaio, pelos vãos da porta, isso quando abriam a porta para a gente, porque alguns faziam de conta que não ouviam, que era para a gente pensar que não havia ninguém em casa. E se porta não havia, escondiam parte do rosto nas mãos, que o preconceito contra baiano era muito grande: Ave Maria, baiano, além de matar, ainda comia!!! Nunca vi em minha vida povo tão atrasado!

As mulheres não cortavam o cabelo, enrolando-o na cabeça, coberta por um pano, debaixo do qual prendiam o cigarro de palha. Todas, sem exceção, usavam saia de algodão batendo nos pés, inclusive as crianças. Em ocasiões de festa, ao invés de trocarem de roupa, muitas vestiam a saia ao avesso.

_ Banho? Uma vez ao mês. Calcinha? Não conheciam. Quando a gente, que era criança, ia fazer xixi, as outras meninas, estranhando a peça íntima, perguntavam:

_O que é isso?

_ Calcinha.

_Para que serve?

Diferentemente das mulheres do Quilombo, continua minha avó, as baianas de Barreiras usavam cabelos rentes ao pescoço, cortados por tio Damásio. Os vestidos, tanto dos adultos quanto das crianças, eram curtos, dando nos joelhos. Além disso, eram de tecido, chita colorida, comprada na cidade e costurada pelas mãos de Joaninha, acompanhando calcinha por baixo, também costurada por ela. E, além disso, havia outra diferença: os baianos tomavam banho de dois em dois dias!

_ Para eles, as baianas eram da granfinagem, mas não deixavam as filhas ficarem com a gente, porque achavam que não éramos bons exemplos: Ave Maria, não podiam, iam aprender coisas que não deviam… Já as moças, ao contrário das mães, ficavam doidas para conversar com a gente.

_E as festas do tio Damásio, vó, eram boas?

_ Boas demais. Meu pai levava a gente e nos proibia de rejeitar dançar. Moça que rejeitasse dança não ficava na festa. Para meu pai, moça que ia à festa tinha de dançar. Era uma vergonha se filha dele enjeitasse dança. Uma vez ele chegou a dizer: Até um cachorro, até um cachorro, se ele levantar as patas e pedir para dançar com vocês, dancem! É para dançar!

O Quilombo comparecia em peso às festas de tio Damásio. Famílias inteiras fechavam as portas das suas casas para irem ao casarão da Glorinha nos dias de festa, mas jamais deixavam as filhas dançarem. Muitas morriam de vontade de dançar, comentavam depois: O pai de vocês é bom, deixa vocês dançarem, o nosso não…

Os homens, sim, dançavam o quanto quisessem, enquanto as mulheres e as filhas ficavam nos cantos, olhando. Eram homens sujos, fedidos, o facão dependurado na cintura, batendo na perna das moças, atrapalhando o passo. Não tomavam banho, não trocavam de roupa, do jeito que estivessem, iam para a festa.

O Quilombo da primeira metade do século XX ainda vivia na época do Brasil Colônia, quando, a exemplo da Europa, os banhos eram considerados perigosos por favorecerem a propagação de doenças. Os portugueses que aqui aportaram trouxeram com eles esse tabu, que parece ter permanecido por muito tempo nas regiões mais isoladas do País. Assim, o Quilombo daquela época, anterior à fundação de Goiânia e Brasília, era um espaço perdido no meio de lugar nenhum, com os seus moradores mergulhados numa cultura anacrônica. A exceção ficava por conta dos negros que moravam perto dos Almeida. Conta minha avó que as mulheres eram limpas, cheirosas, usavam roupa asseada, o cabelo bem preso na cabeça, e, em festas, tinham boa voz, cantavam que era uma maravilha. Ela própria ficava até meio que avexada perto dessas pretas tão pra frente. Mas, mesmo assim, ninguém gostava dos negros e, quando eles iam a alguma festa, todo mundo voltava mal servido para casa, tanto os baianos quanto os brancos da região.

No que diz respeito aos baianos, aos poucos tudo foi mudando. Aliás, o próprio Quilombo foi se transformando. Lentamente, as famílias foram perdendo o medo de se juntar aos baianos, os pesados saiões de algodão foram dando lugar a roupas coloridas, os namorados passavam a presentear as namoradas com cortes de chita, as moças subiram as barras dos vestidos e começaram a usar roupa de baixo. E mais: agora já podiam dançar nas festas de tio Damásio, e a lei dos baianos passou a servir também para as moças do lugar: fosse à festa, não podia rejeitar dança. Por outro lado, as baianas, casando-se, deixavam os cabelos crescerem, tudo foi se ajeitando, as diferenças diminuíam.

Começaram a surgir também as primeiras paixões entre baianos e goianos. Neném Luís, filho de João Luís se apaixonou por Genó (Genolina), a irmã mais nova de Corina e com ela quis se casar. Mas não deu certo. Naqueles dias, tia Cruzinha havia mandado uma foto da família para a Bahia e o seu irmão, Zeca, vendo a imagem de Genó no retrato, por ela se apaixonou, ajeitou os pertences e rumou para Goiás, dizendo para os pais que ia para se casar com a moça.

Naquela época, Chil já havia falecido e Otacílio, casado com Almerinda, irmã de Corina, tornara-se responsável pela menor. Ele não via com bons olhos nenhum dos pretendentes e, quando se mudou para Goiânia, levou também a moça, distanciando-a dos dois rapazes. De lá, rumou para Jandaia, onde enfim Genolina se casou com o viúvo João Moura, de família tradicional na cidade, com quem teve cinco filhos.

Vindo da Bahia em tenra idade, desde cedo Genolina se diferenciou das irmãs. Ainda no Quilombo, começara a dar aulas para as crianças da redondeza. Assim que se casou, em Jandaia, continuou a estudar, vindo a se tornar normalista. Foi, também, a única de sua geração a concluir um curso superior e, já na maturidade, a conseguir se eleger vereadora da cidade que vira seus filhos nascerem e crescerem. Ela conseguiu algo inédito, pois, na verdade, na família de Chil e Joana, o curso superior só deixaria de ser exceções a partir da terceira geração, a segunda nascida em Goiás.

A irmã mais velha de Corina, Almerinda, casou-se com o primo Otacílio, também vindo da Bahia. Conheço-a bem de perto há mais de vinte anos. Aos quinze, fui residir em sua casa, onde permaneci por quase dois anos. Depois, a vida insistindo em nos juntar mais do que já estávamos pelos elos sanguíneos, tornei-me sua nora. Quem vai saber quais as redes invisíveis que nos ligam e que nos separam no rodopiar do mundo, na dança do Universo?

Um dia, Almerinda se decidiu por um caminho ainda sem trilhas: iria para Goiânia, para que os filhos pudessem estudar. O marido continuaria em Jandaia. Longos foram os anos de luta, entremeados pelas esparsas visitas do marido, que trazia o sabão, o arroz, o feijão, a farinha, a carne frita nas latas de banha. O resto Almerinda providenciava, com a ajuda de Deus, da máquina de costura e de sua mãe, que, quase todos os anos, tinha longas ausências, para acompanhar Corina e Genolina em seus partos, em Jandaia ou no Quilombo.

Com quantos pontos se desenha um sonho? Com quantos fios se cose uma roupa? Quanto tempo é necessário para que nossos sonhos passem a ser o sonho de nossos descendentes? Ao som da máquina de costura, as crianças iam crescendo, arrumando emprego, se casando, e a vida continuava, alegre, movimentada, embora sem nenhum diploma. Mas estamos falando de sonho, e sonho é planta boa e, semeada em terra firme, jamais morre. No suceder dos dias e das noites, das placentas e dos risos, o sonho ganhava forma. Dentre os seus filhos, Wilson, o caçula, foi o único que se formou, optando pela carreira jurídica. Já entre os netos, quase todos têm curso superior, nas mais variadas áreas do conhecimento.

E, como as ondas do mar que se formam e se multiplicam, os diplomas de Almerinda continuam vindo. Dando um salto qualitativo, seus bisnetos conquistam, em tempo recorde, vagas em ótimos cursos nas concorridas universidades públicas, revelando a tendência dessa geração.

Posso entrever, no espelho transparente das águas, nas entrelinhas do fino rendado das ondas, por entre as linhas invisíveis do tempo, a décima geração nascida de Almerinda: um a um, seus descendentes dão o passo final em direção ao diploma.

Diviso os seus rostos: alguns lembram, ainda que vagamente, os traços da matriarca. Ao som de uma música triunfante, todos seguem, orgulhosos de suas conquistas, em direção à mesa em que as autoridades os aguardam para o ato solene. Seguem, assim como todas as gerações que os sucederem, impulsionados pelo próprio sonho, sem saber que seus sonhos foram, antes, o sonho de Almerinda, fonte mesma da existência de cada um deles.

Sem medo da vida, Almerinda tomou nas mãos os rumos de seu destino e construiu uma história diferente, com outros personagens, outras cores, outras dores.

Uma vida oferta em concha aberta: um dia, quem sabe, conto-a a vocês.

CAPÍTULO IV: TECENDO A VIDA

Quatro meses se passaram. Aproveitamos as férias para passar algum tempo em Goiás. As malas já estão no carro e, bocejando, saímos ao alvorecer. As águas do Lago do Lajeado, que há dois anos adorna Palmas, estão serenas, e a viagem promete ser tranquila. Depois de quatro dias em Goiânia, onde mora a tia Almerinda, irmã de Corina e mãe de meu esposo, vamos passar dois em Caldas Novas. A reserva já havia sido feita pela Internet, reservas para cinco: além de mim, meu esposo e nossa filha, levaríamos minha mãe e a pequena Clarissa, filha de minha irmã Elza e minha afilhada. Seria uma espécie de viagem de compensação, porque a que tínhamos planejado no final do ano, para Belém, não acontecera.

No trajeto entre Palmas e Paraíso, Lorena cochilou e eu e meu esposo conversamos sobre amenidades. Pouco antes das oito, entre Aliança e Gurupi, o carro apresentou um barulho diferente. Paramos o veículo e não acreditamos: parecia que estávamos revivendo a experiência de seis meses antes, quando o carro apresentara o mesmo problema, inclusive nas proximidades da mesma cidade.

Descemos do veículo e avaliamos a situação: forçar o carro não seria possível. Os celulares todos fora de área. Seis meses antes, um mecânico em férias com a família parara para nos ajudar. Agora, o que nos estaria reservado? Em menos de dez minutos passou uma van que fazia o percurso Aliança/Gurupi, e eu e a Lorena seguimos até Gurupi, de onde acionamos o Seguro.

Depois do carro ser guinchado até a cidade, o diagnóstico nos deixara desanimados: era exatamente o mesmo da ocorrência anterior: o motor teria que ser retificado, era final de semana, e o carro não ficaria pronto tão cedo. Corria, já havia algum tempo, a notícia de que todos os carros com dezesseis válvulas não passavam de cem mil quilômetros. Nunca havíamos dado importância a isso, pois o nosso já havia ultrapassado o número fatídico e não apresentara nenhum problema. Fosse como fosse, a verdade é que ali estávamos nós, pela segunda vez, parados no meio do caminho. O seguro se dispunha a nos levar de volta para Palmas, se quiséssemos. E ponto. A minha primeira vontade foi a de retornar e seguir viagem depois, com segurança. Entretanto meu esposo e minha filha insistiam em seguir adiante; o primeiro, motivado pela necessidade de visitar a mãe, havia algum tempo de cama; a segunda, pela expectativa da viagem que tínhamos marcado para Caldas Novas.

Deixamos o carro para seguir no domingo, na carroceria de uma carreta que iria a Goiânia pegar uma carga de verduras, e seguimos viagem de ônibus. Silvânia, em meados de janeiro, para variar, estava chuvosa… e fria como sempre. Aliás, chovia tanto no Estado de Goiás naqueles dias, que, nesta mesma noite, as chuvas interditaram uma das entradas de Caldas Novas. Para completar, o carro não ficou pronto, de modo que não poderíamos usufruir os dois dias nas águas termais, como planejado.

Aproveitei os imprevistos para fazer outra viagem: foram três dias de intensas conversas com minha avó Corina, sempre a partir das três da tarde. Quando minha mãe ia levar a ela o seu copo de vitamina, eu a acompanhava e lá permanecia até as seis horas, quando retornava para a casa de minha mãe, onde minhas irmãs me aguardavam.

Relembrando esses três dias, trago a narrativa para o presente: ouço-a continuando o seu relato. Interfiro muito pouco. Quero que ela me conte o que gosta de recordar. E isso ela faz com prazer, não importa quem esteja na audiência. Das brigas de seus pais quase não fala. Respeito o seu silêncio, não toco no assunto, vejo que a sua lembrança filtra, na medida do possível, o que gosta de lembrar. E, assim, o que aqui narro, brota de suas lembranças na medida do seu tempo e do seu gosto.

A interação dos baianos com os goianos não foi fácil e nem rápida, ela me diz. Havia uma distância cultural muito grande entre os dois grupos. Por isso, toda aquela geração que viera da Bahia se casaria entre si, à exceção de Genolina, Lia e Camerinda. Genolina, como já sabemos, casou-se com João Moura, de Jandaia. Camerinda casou-se com Manoel Bueno e Lia casou-se com Joaquim Luís, filho de João Luís.

Joaquim Luís, praticamente tetraplégico, era o filho do fazendeiro e já meio passado da idade de se casar. Tio Damásio, responsável pela menina Lia, tratou de acertar o seu casamento com o rapaz, dizendo minha avó, só porque ele era rico. Dias antes do casamento, tio Damásio pintou um dos quartos do casarão onde morava o noivo, decorando-o com flores multicoloridas, no empenho de agradar a noiva tão sem entusiasmo. O casamento ocorreu em Silvânia, e a noiva recusou-se a fazer o percurso até a igreja, de braços dados com o noivo, conforme o costume da época. Seja como for, o fato é que se casaram e tiveram um único filho. Logo Joaquim Luís morreu e Lia casou-se novamente, também com outro moço da região.


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